Levo AI pracada designer.
Comecei onde a maioria começa.
Telas, fluxos, componentes — eram a unidade do meu trabalho. Boa parte do meu craft era saber terminar uma tela: pixel certo, hierarquia clara, estado vazio bonito. E como UI Specialist no time do Zé, isso era exatamente o que se esperava de mim.
Por um bom tempo, isso bastou. O app cresceu, o time cresceu, os times-cliente cresceram. E aí, sem um momento de virada nítido, comecei a sentir uma fricção difusa: cada nova frente esticava a mim, não o sistema. Quanto mais áreas pediam apoio, mais minha presença virava gargalo. Se eu não tocasse, não saía.
O incômodo virou pergunta — uma pergunta que carrego desde então:
“Como faço pra que o craft do meu trabalho não dependa do meu tempo?”
A primeira resposta foi óbvia: refundar a base.
Existia um Gelada. Mas era um Gelada cansado. Tokens fragmentados, componentes em ilhas, identidade Zé Delivery diluída em cada feature nova. Excelente pra produção quando nasceu — frágil agora pra escala que o app tinha alcançado.
No final de 2025, mergulhei numa decisão que não tem nome menor: refazer o Gelada do zero. Não foi reforma. Foi refundação. Era hora de ter um DS no Figma com o DNA do Zé Delivery em cada decisão — do token primitivo à ilustração spot — porque o que o time desenha sai daqui.
O Gelada novo passou a ser, no sentido literal, o lugar de onde tudo parte: Figma como single source of truth. Tokens limpos, semântica explícita, componentes com critério claro de “ready for dev” vs exploração. E, principalmente, brand do Zé visível e respirando em cada peça.
Não é o número que importa. Outros DS existem com mais tokens, mais componentes, mais regras. O que mudou foi o que o Gelada virou pra todo mundo: deixou de ser um arquivo do Figma e virou a fundação sobre a qual o resto desta história se apoia.
Sem essa base refeita, o resto não existe.
Aí veio a IA — e mudou o que era um protótipo.
Por volta de 2025, comecei a usar Cursor e Figma Make como ferramentas reais de trabalho. Vi os designers do time fazerem o mesmo. Em poucas semanas, ficou claro que algo tinha mudado: protótipo deixava de ser tela estática e virava produto navegável, gerado em minutos, com IA escrevendo o código.
O problema é que essa nova prática não conversava com o Gelada. O DS oficial era app-first, controlado, escrito pra humano implementar à mão. Quando o designer abria o Cursor pra prototipar, ou o Figma Make, ou o AI Builders — o Builder interno do Zé — o sistema simplesmente não cabia ali. A IA não conseguia consumir.
O resultado era previsível: ou o designer abandonava o sistema e prototipava com componentes genéricos, ou recriava o Gelada do zero — sem ninguém ver, divergindo silenciosamente do app real.
A ideia foi simples e a execução foi a parte difícil: e se houvesse uma versão do Gelada empacotada pra prototipação assistida por IA, mantendo a mesma identidade do app — pra que o designer pudesse criar protótipos reais com os componentes do produto, não placeholders?
A IA faz o pesado.
A gente decide.
Gelada for Builders.
Versão do Gelada empacotada pra Cursor, Figma Make e AI Builders (Builder interno do Zé). Design e Produto prototipam navegável, com os mesmos componentes que vão pro app — não placeholder, não wireframe. Tokens em W3C, documentação curta otimizada pra contexto de LLM. Implementação em semanas, comprimindo um trabalho de dois anos.
Mas ter sistema não é a mesma coisa que usá-lo.
Aqui veio outra dor que eu não esperava: adoção. Mesmo com o Gelada bem desenhado, mesmo com tokens lindos e componentes claros, os PDs ainda caíam em hardcode. Não por preguiça — por cansaço cognitivo. O sistema tinha 427 tokens e ninguém memoriza 427 tokens.
Eu virava patrulha. Critique virava revisão de variável. E patrulhar não escala.
A pergunta dessa vez foi: o que se eu transformasse o sistema em alguém? Alguém que varresse o arquivo, encontrasse hardcode, sugerisse a variável correta e aplicasse?
Stella.
Plugin de Figma com 5 matchers (Color · Effect · Radius · Spacing · Stroke), engine de sugestão e auto-apply. Tem também o Stella Variables Manager como companheiro — pra visualizar, buscar e exportar variáveis em W3C / CSS / SCSS / JS. PD não precisa decorar o Gelada; o plugin guia.
Faltava uma skill que destravasse UI sem sair do Gelada.
Com o Gelada for Builders e o Stella, o sistema ficou consumível pra IA. Mas tinha um pedaço difícil que não estava resolvido: exploração rápida. Designer precisa explorar variações, criar componente novo, abrir tela do zero — em ritmo de ideia. Quando esse fluxo encontrava IA solta, ela produzia UI que divergia do Gelada: cores fora do token, hierarquia improvisada, padrões que não casavam com o app.
Faltava um direcionador— alguém ali no meio dizendo pra IA: “isso aqui, mas no jeito do Gelada”.
Ao mesmo tempo, descobri o trabalho do Paul Bakaus — o impeccable, que fazia algo parecido: verbos comuns pra IA escrever interface. Achei a abordagem certeira mas notei que faltava cola com o nosso DS: era genérico, sem ancoragem.
Forkei a ideia. Skill-LIPE nasceu como skill ancorada no Gelada: nove verbos de craft que destravam exploração rápida — Bolder, Quieter, Critique, Distill, Polish, Layout, Typeset, Delight, Refine — todos sabendo que precisam terminar dentro do sistema. PD pede “deixa essa tela mais Bolder” e a saída sai já aderente ao DS.
O próximo passo é o que mais me anima: evoluir o Skill-LIPE pra ser a ponte entre código e design. Uma skill que conhece tanto o Gelada do Figma quanto o Gelada for Builders no código — e mantém os dois em sincronia. Quando o designer mexe num token no Figma, a skill já sabe ecoar no for Builders. Quando o código diverge, ela aponta. É a peça que falta pra design e dev pararem de andar em paralelo e voltarem a andar juntos.
Toda essa infra não serve se os PDs não souberem usar.
Tinha o Gelada. Tinha o Gelada for Builders. Tinha o Stella, tinha as Skills. Mas o conhecimento de IA aplicada a Design ainda morava em poucas cabeças — incluindo a minha. Cada PD sabia que tinha que usar IA, mas a maioria não sabia onde começar: o mercado lança ferramenta nova toda semana, conceitos novos pipocam (Skills, MCPs, agentes, contexto), e quem não tem tempo de explorar fica de fora.
Eu queria que cada PD do Zé saísse desse buraco e virasse autônomo. Não que viessem perguntar pra mim toda vez. Que entendessem as ferramentas, os conceitos, e conseguissem aplicar no próprio fluxo de UI.
A solução foi chata e gostosa: cerimônia 2× por semana. Foco claro: IA aplicada a Design, com lente de UI. Eu trago o panorama do mercado — Cursor, Figma Make, Claude, Codex, AI Builders, qualquer ferramenta nova relevante. Trago os conceitos — Skills, MCPs, agentes, fluxos. Eles trazem o que tentaram. Abrimos junto, fazemos junto, eles saem aplicando.
Sem palestra, sem slide, sem tutorial gravado. Prática viva, repetição até virar reflexo.
Não quero PDs perguntando o que IA faz.— Citado na 360 como referência de Curiosidade
Quero PDs aplicando direto.
Olho pra trás e vejo cinco peças da mesma resposta.
A pergunta original — como fazer com que o craft não dependa do meu tempo — virou cinco respostas que conversam entre si:
Gelada dá a fundação no Figma com DNA Zé. Gelada for Builders permite que Design e Produto prototipem telas reais e ricas em Cursor, Figma Make e AI Builders. Stella aplica o sistema sem patrulha. Skill-LIPE destrava exploração rápida sem sair do Gelada. Café com AI ensina os PDs a usar AI aplicada a Design.
Cada um sozinho seria pequeno. Juntos, são peças que conversam pra multiplicar craft — algo que opera mesmo quando eu não estou na sala. PD prototipa com a verdade do produto, brand fica consistente, time inteiro ganha autonomia, craft escala.
E é exatamente esse o trabalho que está em curso agora: amarrar tudo. Ter o Gelada no Figma funcional, organizado e com governança em consolidação. Ter o Gelada for Builders sustentando Design e Produto na prototipação de telas reais e extremamente ricas. Costurar Stella, Skill-LIPE e Café com AI no fluxo do dia a dia, com critério claro do que é o quê e quando entra cada um.
O próximo capítulo não é sobre fazer. É sobre organizar, formalizar e escalar — dar pra esse sistema todo o lugar oficial que ele já merece, e fazer ele rodar sem depender de mim no centro.
A AI não substituiu o time.— A frase que resume tudo
Ela liberta o time.
UI virou multiplicador.
O próximo nível é escopo.
— Síntese do ciclo · 2024 → 2026